
Aposta: Cléo de Páris
14/08 por Redação
Musa d'Os Satyros, a atriz Cléo de Páris conversou com RG sobre seu trabalho na companhia de teatro underground que ganhou o apreço do mainstream. Cléo é algo como a primeira-bailarina; participou de emblemáticas montagens e hoje vive a Alaíde de "Vestido de Noiva" no clássico de Nelson Rodrigues revisto pelos criadores da Praça Roosevelt. A atriz, sem medo do perigo, também está nos cinemas, em "A Encarnação do Demônio", filme delicioso de José Mojica Marins, o iluminado Zé do Caixão.
Sobre o filme, o teatro e a vida enfim, seguiu um papo...
RG - Como foi a experiência de trabalhar com o Zé? Você se sentiu uma mulher superior?
Cléo de Páris - Foi uma experiência bem bacana. Primeiro por conhecer o Mojica, que é uma pessoa muito generosa, muito doce. Lembro do dia em que encontrei com ele pela primeira vez e ele se despediu dizendo: "Vai com Deus, minha filha". Fazer o filme foi interessante, porque é um projeto heróico; ele escreveu esse roteiro há 40 anos! É um filme audacioso, que não faz concessões, que brinca, coisa que o cinema brasileiro anda fazendo bem pouco. É diferente de tudo e a interpretação tem que ser também. Não é naturalista como o cinema quase sempre pede, são textos absurdos mas que precisam ser ditos com verdade, tem que acreditar e se divertir. Eu não me senti uma mulher superior não, só uma atriz com mais um desafio e querendo superá-lo, ajudando a comprar uma idéia muito cara pra uma pessoa muito especial. Bom, há algo de superior nisso, né?
RG - Interpretar Nelson Rodrigues é uma experiência dolorida?
CP - É. Porque Nelson Rodrigues toca na ânima, mexe com o prazer-dor, nos confronta com a morte .Acho difícil sair ilesa de uma experiência como essa.
RG - O que Alaíde transformou em você?
CP - Me fortaleceu. Como atriz muito, porque é uma grande protagonista. Nessa hora, ou você diz "estou aqui" e dá a cara pra bater ou é derrubada. Também me confrontei com minhas limitações, entrei numa grande crise, e isso foi importante. Pessoalmente, me fez resgatar uma feminilidade poderosa, porque a Alaíde é cheia de mistérios e loucura, é forte e frágil, e é muito feminina, muito doce e diabólica.
RG - Qual a troca entre você e atrizes como Norma Bengell (que participou da primeira montagem dos Satyros, meses atrás), e Helena Ignez (que agora assumiu o papel de madame Clessi) na peça?
CP - É lindo contracenar com as duas. A Norma chegou primeiro, com sua força de grande atriz, com muita vontade de fazer a Madame Clessi que já tinha feito e com muito amor. Agora temos Helena Ignez, outro ícone, uma diva do cinema, uma mulher incrível. Desde o começo, eu achei que a Madame Clessi de hoje tinha que ser uma grande atriz, uma grande personalidade. A Alaíde se fascina por isso, eu me fascino por isso, eu aprendo com elas a cada espetáculo. Então a Madame Clessi pergunta: "quer ser como eu, quer?" e eu e Alaíde respondemos: "Quero sim, quero!".
RG - O que você gostaria que as pessoas sentissem depois de assistirem a peça?
CP - Olha, eu não sei responder a essa pergunta... porque até hoje não entendo direito o que sinto com essa obra. O que sei é que o público entra em um universo de sonho, de loucura e de brincadeira, mas isso tudo pra falar de coisas meio proibidas como inveja e morte. No início do processo descobri que Alaíde tinha algo de Alice no País das Maravilhas.
RG - Como começou sua carreira? Foi logo nos Satyros?
CP - Eu faço teatro há bastante tempo, uns 12 anos. Me formei em jornalismo, mas nunca sequer peguei o diploma. Durante a faculdade, em Porto Alegre, entrei numa companhia de teatro, comecei a fazer curtas, morei um tempo no Rio, fiz um espetáculo lindo lá, depois tivemos uma temporada em São Paulo, me mudei pra cá, fiz o curso do CPT e entrei nos Satyros. Sempre quis ter um grupo e um grupo pra fazer parte de verdade, com amizade, parceria, olhar juntos pra mesma direção. O Satyros me deu isso.
RG - Você se define uma atriz "Satyriana"? Em que sentido?
CP - Sim, no plano das "idéias". (rsrs)
RG - O teatro independente paulistano é vitrine para diretores de TV. Você está preparada para encarar o veículo? Algo te amedronta?
CP - Não acho que estou preparada, mas nada me amedronta. Eu nunca tive interesse em televisão, não por preconceito, mas sempre duvidei um pouco da minha capacidade e do meu talento pro vídeo. Sou uma atriz de processo, a TV tem um imediatismo com o qual precisaria aprender a lidar. Mas, recentemente, fiz "A Noiva", do projeto Direções da TV Cultura, com direção do Rodolfo (García Vazquez) e roteiro do Ivam Cabral. Fiquei bem à vontade, acho que fiz um trabalho bonito, tive boas críticas, foi uma surpresa, uma surpresa boa, mas não sei o que posso fazer com isso.
RG - Sua vida segue para onde?
CP - Não tenho a menor idéia. Parei de fazer planos. Entendi que não tenho controle sobre os acontecimentos, mas com as escolhas é diferente, aí sou eu e só eu que decido. Espero a vida me oferecer e escolho. Estou respondendo à sua entrevista porque quero, escolhi fazer isso, mas não sei porque você me procurou e nem o que pode acontecer com isso, por exemplo. Recentemente, fomos à Cuba, fizemos uma estréia lá de uma peça linda chamada Liz, texto do cubano Reinaldo Montero. Tivemos muitos problemas e precisei substituir a Nora Toledo, uma semana antes da viagem, ela era a protagonista e eu fazia pequenos papéis. Foi um baque, tive que decidir muito rápido, decorar muito texto, encarar a Rainha Elizabeth da noite pro dia, literalmente! Escolhi o desafio, poderia ter dito não e a minha história seria outra.
RG - Mais uma pergunta... De onde vem esse sobrenome?
CP - É o meu sobrenome materno, De Páris, italiano.
Mais Cléo no blog dela, aqui
Para vê-la:
"Vestido de noiva" de Nelson Rodrigues
Direção Rodolfo García Vazquez
Centro Cultural São Paulo
Rua Vergueiro, 1000, Paraíso
Tel. 11 3383-3402
Quarta a Sábado, às 21hs
Domingos às 20hs
